Em um aeroporto um senhor bem
vestido, com aproximadamente 50 anos
e malas de couro legítimo, gesticula
firmemente e exige, com expressão
solene, que toda sua bagagem seja
levada na cabine do avião. A
atendente informa a impossibilidade
dado o volume ultrapassar (e muito)
os 5 kg permitidos. E, num ato de
soberba repugnante, ele profere:
“Você sabe com quem está falando?”.
A atendente tranquilamente se
aproxima do microfone, liga-o e
comunica aos presentes no saguão de
embarque: “Senhoras e senhores,
encontra-se próximo ao balcão um
senhor de terno preto, cabelos
grisalhos, aparentando 50 anos que
não sabe quem é, pode ter perdido a
memória. Se alguém o conhecer ou
puder ajudá-lo, apresente-se a um de
nossos funcionários.” Constrangido
“até o último fio de cabelo”, o
homem retornou ao check-in para
despachar sua bagagem.
Nessa história, ao perceber o
ridículo e à incoerência na qual se
colocou, o homem pode, sem prejuízos
a mais ninguém, retratar-se,
colocando-se como os demais
passageiros. Infelizmente não são em
todas as oportunidades da vida que
conseguimos perceber o quanto
estamos sendo egoístas, prepotentes
e contraditórios. E, nas poucas
vezes que compreendemos isso,
comumente pessoas já foram magoadas,
lesadas ou vitimizadas pelas
perniciosas palavras ou atos.
Há poucos dias, a imprensa noticiou
o suposto linchamento em Joinville
de um homem que estaria tentando
furtar uma bicicleta. Um jornal
local fez uma enquete sobre o fato.
Dos quatro entrevistados, três se
colocaram a favor da atitude dos
moradores que, segundo eles, teriam
feito justiça pelas próprias mãos,
uma vez que a Justiça não funciona.
Essa manifestação merece análise.
Primeiro perguntar o que se entende
por justiça. Em crimes relacionados
contra o patrimônio, costuma-se
afirmar que a “justiça foi feita” se
o acusado foi punido com prisão.
Logo, se a “a justiça não foi
feita”, não houve prisão. Porém,
quando uma empresa demite
trabalhadores sem pagá-los
devidamente, aceita-se que a
“justiça foi feita” se os bens do
proprietário forem confiscados,
leiloados e a renda distribuída
entre os ex-funcionários – sem falar
em cadeia. Por quê, em alguns casos,
a prisão é sinônimo de justiça, e em
outros o senso comum aprova a adoção
de outras medidas? Depende de quem é
o ladrão.
Aos pobres é usada a prisão como
forma privilegiada para controle da
ordem social; afinal, devemos
moralizar as coisas, ninguém deve
pegar nada de ninguém, mesmo que eu
esteja morrendo de fome enquanto
você morre de obesidade. Caso
contrário, colocaremos em risco todo
o funcionamento da sociedade
capitalista que precisa defender o
sagrado direito à propriedade. E,
aos ricos, não “fica bem” a prisão,
ofende a idéia imaginária de mérito
e sucesso. Assim, seguimos avaliando
a eficácia da “justiça” sem
considerar o contexto dos atos
tipificados como criminosos e as
penas aplicadas. Não seria mais
adequado para o ladrão reincidente
em pequenos furtos, motivado pelas
drogas, o tratamento para
dependência ou o suporte
psicossocial efetivo acompanhado de
uma oportunidade profissional? Dá
menos trabalho e custa menos do que
manter prisões.
Segundo, o que se conceitua como
segurança pública? Quando se fala da
necessidade de mais segurança
pública, geralmente se quer dizer:
policiais por todos os lugares. Por
que nos sentimos tão frágeis? As
nossas relações sociais são ruins.
Na maioria das vezes, nem sequer
conhecemos nossos vizinhos, não
fazemos nada juntos, não
compartilhamos expectativas sobre o
lugar em que moramos; ao contrário,
nos habituamos a ver no outro a
figura de um potencial inimigo.
Inclusive, temos a capacidade de nos
sentir sozinhos numa cidade de 500
mil habitantes. Nesse caso, como não
se tem mais a capacidade de confiar
e estabelecer relações de qualidade,
demanda-se ao Estado a proteção da
população (contra si mesma).
Pensando bem, não se deveria nem
falar de segurança pública, a
preocupação é mesmo com a segurança
individual.
Terceiro e último questionamento: o
que representa “fazer justiça pelas
próprias mãos”? Certamente, quando a
população apoia iniciativas de
cidadãos ditos de bem para “fazer
justiça com as próprias mãos” é
possível constatar um alto grau de
tensão e revolta acumulada. Vale
perguntar: contra o que e contra
quem? Não seria mais razoável
considerar que a população está
cansada de ser vitimada diariamente
pelo sistema desigual que reserva
saúde, lazer e educação para poucos
do que julgar que as pessoas
extrapolaram o limite do bom senso
por um simples furto?
É mais fácil julgar e condenar uma
pessoa, e ter a falsa sensação de
justiça, do que analisar as
contingências dessa complexa
sociedade e combater a injustiça
social. Quando aprovamos um ato de
violência contra o outro, não
estamos fazendo justiça. Estamos nos
igualando a ele, incorrendo no mesmo
erro.
Às pessoas que, ao saberem da
notícia do suposto linchamento,
apoiaram tal medida, caberia, assim
como ao passageiro soberbo, uma
reflexão sobre como estamos nos
colocando na sociedade? O que
estamos de fato demandando dos
outros? O que nos cabe como
cidadãos? Infelizmente, se
entenderem como equivocada a sua
opinião, não será possível voltar ao
saguão de embarque e despachar a
bagagem, nesse episódio, a vida não
pode ser recuperada.