“Se essa rua, se essa rua fosse minha…”

Me diz, você já se imaginou usando a mesma roupa por um mês inteiro? Meias, sapatos e casaco molhado? O frio entrando pela alma, devagarzinho beijando a espinha. O banho sendo um sonho de consumo. A janta, um oásis? Já imaginou deixar seu colchão, as cobertas e o travesseiro macios. Trocar tudo por um repouso ao relento, sobre uma fina camada de papelão, com cada troca de marcha nas ruas fazendo seu coração disparar? Os olhos cansados da vigília. A esperança correndo para o esgoto. A autoestima em ruínas…
Pode ser que sim ou não, que a imaginação já tenha invadido seu razoável padrão de vida ou que forças maiores já tenham até estremecido os eixos, trazendo uma leve angústia pela possibilidade. Mas, muitos nem chegam perto disso. Muitos nem, sequer, chegam a olhar para além do próprio umbigo…
Nesta semana que passou, me aproximei um pouco desse tema, do ser humano que vive nas ruas. No teatro, acompanhei a representação de “Dois perdidos numa noite suja”, texto de Plínio Marcos, que, resumidamente, entre sopros de humor, lança ao público o livre e o frágil na rotina de dois sujeitos que habitam a base da pirâmide social. A marginalidade. Na quinta-feira chuvosa, a Escola Popular de Direitos Humanos trouxe à pauta a população em situação de rua.
O espaço aqui é mínimo para explorar um universo tão cheio de vazios no que se refere à atenção da sociedade. Das necessidades básicas, já falei lá no início. Mas tudo seria tão perfeito se um prato de sopa, ao meio-dia, resolvesse o problema. Para citar algumas das importantes observações do grupo que veio de Curitiba para dialogar, talvez ainda assim eu me estenda, e você continue a ler, se quiser…
Hoje, 19 de agosto, comemora-se o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua – data de aniversário de uma entre tantas tragédias brasileiras, o massacre na Praça da Sé, centro de SP, 2004. A linha do tempo marcada por episódios parecidos é extensa, como em 1997: a barbárie em Brasília, protagonizada por jovens da classe média alta que atearam fogo no índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. E por aí vai.
Na lata: o olhar e a reivindicação pelos direitos da população em situação de rua é recente, a existência do problema e do preconceito é atemporal. No Brasil, pelo menos 50 mil pessoas estão nas ruas, vulneráveis, especialmente, à humilhação e à violência policial. As políticas públicas engatinham, ganhando um empurrãozinho com o Decreto 7053/2009.
Os albergues não dão conta e não são ideais (na capital paranaense, conseguem atender somente 10% desta população). As praças servem de moradia, ainda que sem consentimento. As drogas mais degradantes, com as quais as instituições de poder fazem vista grossa, potencializam a inércia e o desespero.
Grandes eventos esportivos estão a caminho e já começaram os esforços para “higienizar” as ruas. A memória volta para a década de 1960, quando a Rainha Elizabeth esteve no Brasil – e soluções grotescas foram tomadas (assista “Topografia de um Desnudo” ). As mídias alternativas continuam tímidas. Disque-denúncia, criação de repúblicas e contagem desta população no censo IBGE de 2012
Não há nada que lhes impeça o direito de ir e vir. Aliás, quantas vezes ainda será preciso gritar que nada disso surge de uma hora pra outra? Que as coisas andam e que muitas – além do nosso próprio umbigo – estão andando pra trás???

Artigo escrito e Publicado originalmente no Blog da companheira Fernanda Lange (http://ferlange.blogspot.com) e autorizado para replica em nosso site pela autora.

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