Opinião

Manifesto Conjunto no Dia Mundial dos Direitos Humanos QUEREMOS MAIS DIREITOS HUMANOS, PARA TODOS E TODAS!

As organizações signatárias vêm a público para manifestar sua profunda preocupação com os caminhos da política de direitos humanos no Brasil. Em que pese o fato de que a política de direitos humanos nunca fora efetivamente uma política de Estado no Brasil, mas sim de alguns órgãos e setores de determinados governos, o que ora vivemos é um processo de total desestruturação, desmonte e retrocesso nas garantias constitucionais e de direitos humanos, conquistados a partir de muita luta da sociedade civil organizada. O atual governo brasileiro ataca de forma flagrante os compromissos com direitos humanos e age no sentido de desproteger a cidadania. Não há o menor respeito ao princípio da proibição do retrocesso e de investimento do máximo de recursos para a garantia dos direitos humanos. Há um movimento brutal de submissão dos direitos e da vida aos interesses fiscais que, em nome de sanear o Estado, drenam recursos para o capital financeiro especulativo e retiram as condições para o investimento em políticas voltadas aos direitos humanos. Diante deste quadro, as chamadas instituições democráticas brasileiras, não têm sido capazes, não possuem mecanismos ou não querem enfrentar as perdas e os retrocessos que vivemos. As organizações estão especialmente preocupadas com o abandono dos compromissos constantes no terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) – que, em breve completará 10 anos (publicado em  1/12/2009) -, e com vários outros planos, entre eles, o Plano Nacional de

Educação, o de políticas públicas para mulheres, o de igualdade racial, o de promoção da população LGBTQI, o de educação em direitos humanos, entre tantos outros. O anúncio do “Programa Juntos pela Vida: Família e Direitos Humanos”, feito pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos para o período 2019-2023, por meio da Portaria nº 2.467, de 06/09/2019, aponta para prioridades que são muito diferentes daquelas constantes destes compromissos construídos com a participação da sociedade civil brasileira. Há clara sobreposição de propostas de ação e, ainda que as anteriores não tenham sido revogadas, de longe estão entre as prioridades a serem implementadas. Muito nos preocupa também o fechamento e inviabilização dos espaços de participação social, tais como os Conselhos, Comitês e as Conferências, em várias áreas de direitos e políticas. Está claro para nós que a série de ações de restrição orçamentária, estrutural e de autonomia política, são tentativas de desgastar e inviabilizar a atuação efetiva e de denúncia que vem sendo executada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos. O recente fato da destituição da Procuradora Débora Duprat da função de conselheira no Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e em perspectiva de assumir a presidência do CNDH em 2020, pelo atual Procurador Geral da República Augusto Aras, é uma amostra do desrespeito, autoritarismo e intervencionismo na autonomia deste Conselho.

Além de todas as perdas já ocorridas, nos preocupa profundamente o potencial de projetos e medidas já anunciadas e em andamento que colocam risco a garantia dos direitos humanos e das vidas de muitas pessoas. Entre elas está a afirmação do Estado punitivo constante na proposta do pacote anticrime e o teor do que será aprovado do projeto apresentado pelo governo (já passou pelo Senado e agora vai para a Câmara). Aspectos como o aumento do tempo máximo de cumprimento de pena, de 30 para 40 anos, são vistos por especialistas como um risco que favorece a lógica do encarceramento, num Brasil que já tem aproximadamente 812 mil pessoas presas, conforme dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de julho deste ano. Outra crítica ao projeto diz respeito à criação de um banco de perfil genético para fichar informações de pessoas que passam pelo sistema de Justiça criminal, medida esta, que segundo especialistas, pode ajudar a endossar o preconceito social que atinge ex-detentos, por exemplo. Tão, ou mais grave, é a da insistência do governo em querer garantir o excludente de ilicitude para os agentes de segurança pública, mesmo diante da inconstitucionalidade contida nesta matéria e dos reais riscos à ampliação da ação violenta das polícias, colaborando para o aumento dos confrontos na sociedade, para o avanço no  extermínio da juventude negra e pobre das periferias e com a população negra em geral, bem como para o ataque a lideranças e defensores/as de direitos humanos, que fazem luta pela terra, pelos territórios, pela natureza e pelos bens comuns e se encontram expostos a diversas situações de violências.

As propostas de Emendas Constitucionais do Plano Mais Brasil, efetivamente vão na contramão de conquistas históricas, destruindo, inclusive, direitos já garantidos. É grave a proposição de que “será observado, na promoção dos direitos sociais, o direito ao equilíbrio fiscal intergeracional”, sugerido como parágrafo único ao artigo 6º da Constituição Federal. Junto com esta estão as propostas de desvinculação dos recursos, inclusive com mudanças para os recursos previstos para a garantia do direito à saúde e à educação. Estas medidas, somadas a outras e aos impactos da Emenda Constitucional nº 95/2016 agravarão ainda mais os problemas para a garantia e a efetividade dos direitos sociais, com forte impacto na ampliação das desigualdades sociais no país. Esta preocupação se intensifica, com o Plano Pluri Anual (PPA 2020-2023) proposto pelo governo, que não menciona o fortalecimento da democracia e “esvazia os direitos”, uma vez que os recursos previstos para o período na área social são 40% menores do que os recursos previstos para a área econômica, que é  objetivamente prioritária em favorecimento aos mais ricos. Ou seja, em nome da “simplificação” e do “realismo fiscal”, os direitos humanos, definitivamente, não estão nos planos do governo brasileiro, a não ser para serem desmontados e atacados. As organizações também manifestam sua profunda preocupação em relação à participação e aos direcionamentos realizados pelo Brasil nos espaços multilaterais, em especial nos de direitos humanos.

Nestes espaços a diplomacia brasileira tem assumido posições que rompem com a tradição brasileira acumulada há décadas, às quais, em grande medida, historicamente afirmaram e se comprometeram com a defesa do universalismo, do avanço das liberdades, da promoção progressiva dos direitos humanos, vide os ataques perpetrados contra documentos e convenções internacionais que versam sobre a defesa da igualdade de gênero, racial, entre outras. Estas posições, que também se traduzem em ações dentro do País, não reconhecem os direitos humanos como proteção e garantia para todos e todas. Elas são seletivas, pautadas por valores conservadores e com forte caráter de fundamentalismo religioso de cunho cristão. Tais posições que se orientam pela defesa de que os direitos humanos são para os “humanos do bem”, os “humanos direitos”, em oposição aos demais seres humanos, caracterizados como minorias, como “bandidos” e apoiadores de bandidos são frequentemente defendidas por setores do governo com argumentos bíblicos distorcidos em detrimento da Constituição. Distorcem o direito à liberdade religiosa para promover o racismo religioso, a misogenia, a LGBTIQfobia, o ódio às populações originárias e tradicionais, a violência e a eliminação daquelas pessoas e grupos sociais que são consideradas expressão do mal, entre elas: mulheres, LGBTIs, indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais, negros e negras, juventudes, crianças e adolescentes. Estabelecem falsa dicotomia entre “defesa de valores e direitos da maioria moral e valores e direitos da minoria. Dizem que os valores e os direitos das minorias não podem estar acima dos valores e direitos da maioria. Para a sociedade civil, que recentemente se manifestou contra a recondução da candidatura do Brasil ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, fica a preocupação com a falta de orientação para a atuação na perspectiva da universalidade, da imparcialidade, da objetividade e da não-seletividade, do diálogo internacional construtivo e da cooperação com vistas a aprimorar o respeito, a promoção e a proteção de todos os direitos humanos, de acordo com o Artigo 4º da Resolução nº 60/251 da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Finalmente, as organizações signatárias instam as instituições, tais como o Parlamento, o Ministério Público, o Poder Judiciário, a cumprirem com suas responsabilidades no que se refere ao fortalecimento da democracia e ao cumprimento das garantias constitucionais e com os compromissos em direitos humanos. Também manifestam solidariedade aos lutadores e às lutadoras do povo, aos defensores e às defensoras de direitos humanos, às lideranças sociais e políticas, que seguem em luta pelos direitos humanos, de cabeça erguida, com coragem, dizendo “queremos todos  os direitos humanos para todas e todas, já!”. Solidarizam-se também com os sujeitos, as lideranças, organizações e povos que estão na resistência e na luta no Brasil e em vários países da América Latina e do mundo. Conclamam à solidariedade interorganizacional no plano nacional e internacional e afirmam que somente a formação de alianças estratégicas de resistência ativa e criativa ajudarão nesta travessia difícil, mas que se alimenta do esperançar dos que há séculos lutam e conquistam espaços de mais igualdade e participação. Afirmam que direitos humanos continuam cada vez mais fazendo sentido como conquistas, razão pela qual seguirão fazendo processos de resistência, luta e de organização no cotidiano, em cada pedaço, em cada canto, em cada mente e em cada coração. Viva os direitos humanos, viva o dia mundial dos direitos humanos.

Brasil, 10 de dezembro de 2019.

Assinam este Manifesto

1. Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil

2. Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH Brasil

3. Fórum Ecumênico ACT Brasil – FEACT

4. Processo de Articulação e Diálogo Internacional – PAD

5. Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – SMDH

6. Acesso Cidadania e Direitos Humanos

7. Aliança Nacional LGBTI

8. Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA

9. Art Jovem

10. Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME

11. Associação Nacional de Educadores e Educadoras Sociais – ANEES

12. Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB

13. Articulação Nacional de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB

14. Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos –

ABGLT

15. Associação Brasileira de Homeopatia Popular – ABHP

16. Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG

17. Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente – AMENCAR

18. Associação de Mulheres Negras do Acre

19. Associação de Mulheres Unidas da Serra (AMUS)

20. Associação de Pesquisa Xaraiés – Xaraiés

21. Associação dos Amigos do Centro de Formação e Pesquisa Olga Benário Prestes –

AAMOBEP

22. Associação dos Retireiros do Araguaia – ARA

23. Associação Sócio Cultural e Ambiental Fé e Vida – Sociedade Fé e Vida

24. CDDH Pedro Reis

25. CDEs Direitos Humanos

26. Centro Burnier Fé e Justiça, CBFJ

27. Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA

28. Centro de Apoio aos Direitos Humanos Valdicio B dos Santos (CADH)

29. Movimento Nacional de População de Rua no ES (MNPR-ES)

30. Centro de Apoio as Iniciativas Sociais – CAIS

31. Centro de Defesa da Cidadania e dos Direitos Humanos Marçal de Souza Tupã I/MS

32. Centro de Defesa da Vida Herbert de Sousa – CDHVS

33. Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Pe. Marcos Passerini

34. Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antônio Conselheiro – CDDHAC

35. Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra/ES

36. Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Londrina e MNDH/PR

37. Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno de Marapé/ES

38. Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre – CDDHEP

39. Centro de Defesa dos Direitos Humanos Nenzinha Machado/PI

40. Centro de Direitos Humanos de Cristalândia

41. Centro de Direitos Humanos de Formoso do Araguaia

42. Centro de Direitos Humanos de Palmas

43. Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès – CDHDMB

44. Centro de Direitos Humanos Dom Pedro Casaldáliga

45. Centro de Direitos Humanos e Memória Popular – CDHMP

46. Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade – CDHHT

47. Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Braz

48. Centro de Direitos Humanos Sarandi

49. Centro de Educação e Assessoramento Popular – CEAP

50. Centro de Estudos Feministas e Assessoria – CFEMEA

51. Centro de Estudos, Pesquisa e Ação Cultutal – CENARTE

52. Centro de Referência em Direitos Humanos – UFRN

53. Centro do Negro do Pará – CEDEMPA

54. Centro Dom Hélder Câmara de Educação e Ação Social – CENDHEC

55. Centro Dom José Brandão de Castro – CDJBC

56. Centro Pastoral para Migrantes – CPM MT

57. Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo

58. Coletivo LESBIBAHIA

59. Comissão Regional de Justiça e Paz de Mato Grosso do Sul – CRJPMS

60. Circulo Palmarino

61. Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça

62. Coletivo Feminino Plural

63. Coletivo Mães Eficientes Somos Nós

64. Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo – CDHPF

65. Comissão de Justiça e Paz de Brasília

66. Comissão Pastoral da Terra – CPT

67. Comissão Pastoral da Terra – CPT – MT

68. Comissão Regional de Justiça e Paz de Mato Grosso do Sul – CRJPMS

69. Comitê de Direitos Humanos Dom Thomás Balduíno

70. Comitê de Prevenção e Combate a Tortura do Piauí

71. Conceitos Ecológicos e Etnoecológicos aplicados à conservação da água e Biodiversidade

do Pantanal – CONECTE

72. Conselho Indigenista Missionário – CIMI – MT

73. Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC

74. Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE

75. Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE/ES

76. Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE/MT

77. FIAN Brasil

78. Fórum Municipal de Defesa dos Direitos Humanos de Campinas

79. Fórum de Mulheres do Mercosul – Seção Lages/SC

80. Fórum Direitos Humanos e da Terra – FDHT- Mato Grosso

81. Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – FORMAD

82. Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – Formad

83. Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacia Hidrográfica – Fonasc CBH/MT

84. Fórum de Mulheres do ES

85. Fundação Instituto Nereu Ramos

86. Fundação Luterana de Diaconia – FLD

87. Grupo Arareau de Preservação e Educação Ambiental – Grupo Arareau

88. Grupo de Mulheres Negras Mãe Andresa

89. Grupo Dignidade

90. Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê (Universidade de Brasília)

91. Grupo Identidade LGBT

92. Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte, GPEA-UFMT

93. Grupo Semente da Chapada dos Guimarães/MT – Grupo Semente

94. IDEAS – Assessoria Popular

95. Identidade – Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual – Campinas

96. Instituto Braços

97. Instituto Brasil Central – IBRACE

98. Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – IBASE

99. Instituto Caracol – ICaracol

100.Instituto Centro de Vida – ICV

101.Instituto Dakini

102. Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos – IDDH

103. Instituto de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais – IDHESCA

104. Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC

105. Instituto de Pesquisa e Educação Ambiental – Instituto Gaia

106. Instituto DH

107. Instituto Terramar

108. Instituto Trabalho Digno

109. Instituto Vladimir Herzog

110. Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço

111. Marcha Mundial de Mulheres / SC

112. Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH/SC

113. Movimento Nacional de Filhas e Filhos de Trabalhadoras e Trabalhadores

114. Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua – MNMMR

115. Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade/PA

116. Movimento do Espírito Lilás

117. Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

118. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST

119. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST MT

120. Movimento Luta Antimanicomial – ES

121. Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador NEAST ISC

122. Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos – NERU – UFMT

123. Observatório da Juventude/ES

124. Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida – OLMA

125. Organização de Direitos Humanos Projeto Legal-RJ

126. Pastoral Carcerária Nacional

127. Pastoral da Juventude

128. Pastoral Carcerária do Regional NE 1 da CNBB – Ceará

129. PASTORAL OPERÁRIA NACIONAL

130. Plataforma Nacional de Crianças e Adolescentes com Familiar Encarcerados. CAFE’s

131. Projeto Meninos e Meninas de Rua – PMMR

132. Rede Internacional de Pesquisadores em Educação Ambiental e Justiça Climática –

REAJA

133. Rede Mato-grossense de Educação Ambiental – REMTEA

134. Rede Afro LGBT

135. Rede Gay Latino

136. Rede SAPATÁ

137. RENAP – Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares

138. SERPAZ – Serviço de Paz

139. Sindicato dos Trabalhadores no Ensino o Público de Mato Grosso – SINTEP MT

140. Sociedade Colatinense dos Direitos Humanos

141. SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia

142. União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias – UNICOPAS

143. UNA LGBT – União Nacional de Lésbicas Gays Bissexuais Trans Travestis e Intersexos

144. UNISOL Brasil

Prédica – Cegueira

Prédica proferida pela Capitã Paula Mazzini Mendes do Exército da Salvação, na celebração de encerramento das atividades da Comissão Ecumênica de Joinville, na Paróquia Luterana da Paz, no dia 24/11/2019.

John Newton é o autor de um dos hinos mais apreciados de nossa cultura cristã. “Amazing Grace”, ou “Graça Maravilhosa”, foi composto como forma de registrar seu arrependimento por se envolver com atividades reprováveis aos olhos de Deus. Newton era um traficante de escravos e usava seus navios para transportar pessoas de forma subumana. No meio de uma tempestade, porém, viu o quanto era frágil e desamparado e clamou pela graça de Deus. Após essa metanoia e uma longa caminhada, se tornou pastor anglicano e influenciou pessoas como William Wilberforce, responsável pelo movimento abolicionista que tornou ilegal a escravidão na Inglaterra do século 18.

Paulo de Tarso, o apóstolo, passou por uma experiência semelhante. A tempestade em sua vida não veio no meio do mar, mas no meio de uma estrada. Veio em forma de luz. E após essa experiência, sua vida também mudou. A narrativa do livro de Atos conta como ele, um fariseu perseguidor de judeus conversos, se tornou um defensor desse povo e, mais tarde, perseguido por causa de seus posicionamentos.  Assim como Newton, ele “era cego, mas agora via”.

A cegueira é uma metáfora interessante. Tanto que José Saramago, nosso prestigiado escritor e poeta português, escreveu um romance influenciado por essa ideia. Em “Ensaio sobre a cegueira”, ele diz que cegueira é “viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. Saramago percebeu que o estado de cegueira vai muito além da cegueira física. Ele também diz: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”

Há várias formas de cegueira. A mais óbvia, a física, tem feito o mundo se adaptar. Há livros e placas de elevadores em braile, chão com texturas, auxiliares no metrô e sinais de trânsito com campainhas especiais. Ainda falta muito para que um cego se sinta confortável, mas já demos um passo.

Há porém, uma cegueira mais grave, por ser prejudicial e devastadora: a cegueira que me impede de ver outras pessoas além de mim mesma. De ver meu próximo, de se compadecer com sua dor e de lutar para extingui-la.

Esse tipo de cegueira é que tem gerado o racismo, responsável por exemplo pelo extermínio de mais de 6 milhões de judeus durante a segunda guerra, de quase 1 milhão de pessoas da etnia Tutsi no genocídio de Ruanda em 94 e recentemente de uma família negra, executada por engano pela polícia do Rio de Janeiro com 80 tiros, enquanto ia para um chá de bebê e, por serem negros, foram confundidos com traficantes.

Esse tipo de cegueira tem gerado o sexismo, responsável por colocar as mulheres em um lugar onde elas nunca quiseram estar – subjugadas, com salários menores e menos privilégios. Que faz com que meninas de 11 anos sejam legalmente dadas em casamento a homens de 50 em países como o Irã ou que a Mutilação Genital Feminina ainda seja uma realidade em vários países africanos. Que faz com que o Brasil continue sendo o quinto pais mais perigoso para uma mulher viver e que exista a necessidade de termos uma lei como a Maria da Penha, criada especificamente para tentar lidar com os cada vez mais frequentes casos de violência doméstica.

É esse tipo de cegueira que gera a xenofobia. Existem no planeta 40 milhões de pessoas internamente deslocadas, 25 milhões de refugiados, segundo a ACNUR. O Brasil, mesmo sendo um país em desenvolvimento, já viu mais de 85 mil venezuelanos cruzarem a fronteira desde o começo da crise na Venezuela. Nossos bairros, escolas e igrejas estão se tornando cada vez mais diversos em termos de cultura: haitianos, sírios, venezuelanos, cubanos. Mesmo assim, nossos irmãos ainda encontram dificuldades de achar empregos decentes, escola para seus filhos e atendimento médico imparcial. Ainda encontram placas em restaurantes, dizendo “refugiados, mantenham o banheiro limpo”.

É esse tipo de cegueira que gera a homofobia, que em seu extremo tem causado mortes e suicídios. O Brasil é um dos países mais homofóbicos e intolerantes com o público LGBT. De acordo com o The Guardian, “Pelos menos 445 LGBTs brasileiros morreram vítimas de homofobia em 2017, com um aumento de 30% em apenas um ano”. Para confirmar esse dado, vimos o primeiro político assumidamente gay fugir do país como resultado de ameaças a sua vida e um adolescente de 14 anos tirar sua vida após sofrer bullying na escola.  

É esse tipo de cegueira que gera a aporofobia. Um termo recente, cunhado nos anos 90 pela filosofa espanhola Adela Cortina, que percebeu que existe um sentimento diferente para com um estrangeiro se ele for pobre. Turistas e celebridades são bem-vindos, mas refugiados que são pobres nos incomodam. Nossa atitude natural para com um morador de rua geralmente é de desprezo e rejeição. Somos convencidos de que o pobre traz com ele problemas, criminalidade e drogas. Assim, somos levados a conclusão de que temos que nos defender dessa “classe” e assim se manifesta a aporofobia: medo e rejeição do pobre.

É esse tipo de cegueira que está destruindo a Amazônia. Que tem minimizado a luta pelo meio ambiente e a biodiversidade, rotulando-a de mero partidarismo. Que tem dizimado os povos indígenas e devastado suas terras, que tem tornado as notícias de desmatamentos e queimadas cada vez mais frequentes em nossos noticiários, que tem nos feito ver cenas como o recente derramamento de óleo em nosso litoral nordestino. 

A cegueira enfim, é uma metáfora e tanto. E não foi só Saramago que percebeu isso. Jesus de Nazaré também falava de um tipo de cegueira que ia além da condição física. E quando ele, que sempre foi bom em figuras de linguagem, diz que veio trazer vista aos cegos (Lc 4.18), não está falando só de uma cura física, embora tenha literalmente curado muitos cegos.

Está falando de tirar as traves que nos impedem de ver quem somos e que nos impedem de ver nosso próximo. Traves que enganam, que oprimem, que distorcem, que sufocam, que cansam, que desviam nosso olhar daquilo que realmente importa. 

Todos nós precisamos de uma metanoia, seja ela em forma de uma tempestade, ou uma forte luz no meio do nosso caminho. Algo que abra nossos olhos, que nos tire da condição de cegueira e nos faça ver o mundo ao nosso redor.

Estamos celebrando aqui hoje o ecumenismo: que é um apelo à unidade de todos os povos.

Que nossa caminhada seja um dar de mãos, mas também um abrir de olhos.

Que seja um refresco para a alma, mas também um antídoto contra o egoísmo natural do ser humano.

Pois quando dou a mão para meus irmãos, escolhendo não olhar para as diferenças, mas sim para as semelhanças, eu dou um passo em direção a luz.

E temos muitas diferenças entre nós: de vestimentas, de doutrinas, de cosmovisão, de liturgia.

A luta que nos une, no entanto, é bem maior do que isso.

Nosso mundo, o mundo que temos em comum, está gritando de dor.

Que possamos escolher não permanecer na cegueira, no conforto, no egocentrismo, mas que escolhamos ver e, vendo, possamos nos unir e agir. Pois, como bem disse Fannie Lou Hamer:  “ninguém é livre até todos sermos livres”.

Que nosso Pai das luzes, o Senhor das Metanóias e das tempestades, nos abençoe com um incomodo que nos impeça de nos conformarmos com a cegueira.

10 de dezembro – Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 71 anos e o colegiado do CDH, observando a conjuntura nacional e internacional, sugere uma análise sobre os ataques e retiradas de direitos. Propõe também uma discussão para organização e enfrentamento contra as ações governistas de Bolsonaro. Participe!
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